sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Velejar

Teu peito me espetava, lembro bem
a gente em concha debaixo da colcha
de retalhos das histórias de nossas
vidas.
Minha história eu carregava feito um
fardo,
poderia até dentro daquela concha ter
derrubado tua cama,
do chão não passaria,
mas era tão pesada
(e ainda é um pouco),
mas teu peito espetou minhas costas
e dos furos gerados saíram os ares
imperfeitos,
vários e de monte,
se esvaindo.
Teus espinhos me deixaram mais leve,
agora meu peso flutua em tua direção
e teus espinhos me curam as dores.
Quero merecer cada furo de verdade
passageira,
como toda verdade é,
que teus olhos castanhos
quase chineses
me derramam,
e quero dizer na minha próxima história
que ela ainda é a mesma que agora
(e se não for tudo bem)
e que valeu a pena cada giro do destino
e desmantelo,
cada roda da fortuna que esse baralho,
sem cartas marcadas,
insiste em girar.
Me cura, me espeta, me fura.
Deixa pro destino dizer o que vai ser
só ele sabe,
a gente sabe amar e sobreviver
e sobreviver do amar
sempre vale a pena,
velejar.

segunda-feira, 28 de agosto de 2017

Pedra solta

Segunda vez que acampei no sitio da família de seu João e Dona da Paz. Na primeira, eu voltei de carona encima da carroceria de um caminhão, trilhando a descida de Serra Negra à Bezerros. Quem estava comigo não importa mais. No final, as nossas experiências são só nossas e o sentimento delas é o que permanece. Voltei também com a sementinha de querer morar num lugar como aquele. De ser da terra, da calma e da poesia, como Dona da Paz. Dessa vez, voltamos de taxi com hora marcada, na confiança da palavra, que ainda é respeitada no interior. O sitio Pedra Solta é um pedaço do paraíso "se o paraíso existe mesmo" como disse um senhor que, por amar tanto aquele lugar, já tem lona e lugar marcado no camping. Acho que ele deve ter viciado naquela sensação de paz e verdade que o mato daquele canto traz. Interior é um riqueza. A natureza do interior nem se fala. Aquelas pedras enormes, cheias de uma vegetação que teima em crescer mesmo encima de uma rocha fria e dura. Porque há vida. Há vida na pedra, na borboleta e nas flores amarelas que se derramam por todo o campo. Um sentimento de eternidade e miudeza. Que mundo grande e universo perfeito! Não tinha como não pensar na grandiozidade que são as coisas pequenas, e no valor que só as pessoas da calma podem reparar. Eu me senti acolhida nas duas vezes que fui lá, talvez mais na segunda. Os olhos de quem te veem ser de fora, os olhares curiosos de lá, o carinho e aconchego que todos te transmitem, mesmo sem perceber. Me senti cuidada: pela família dona daquela terra maravilhosa, pelas pessoas que te recebem no restaurante ou no bar, pelos taxistas que rodam todo Pernambuco, pelo cachorro que teimou em nos acompanhar mostrando o caminho da trilha, nas dicas  de quem já foi menina trelosada da filha de seu João, suspendendo o arame pra nossa aventura. O sentimento que dá é que a eles as miudezas da vida importam mais. O que nessa cidade grande é lapso de minuto sem sentido, ações tristes e vazias, as pessoas daquele lugar: olham, cuidam e sentem. Minha cabeça rodava um pouco e pensava no quanto as sensações de lugares e as energias deles podem nos atingir. De uma megalope branca e endinheirada à um sítio no interior. O mundo é como a vida pode ser: cheio de direções. Minha vida tava sendo um campo verde e minado, cheia de explosões amargas e doces. Pude, enfim, sentir gratidão pelas amargas. E confiar que era só o começo de um caminho bom. Na minha cabeça, desejo de viver e de querer ter um lugar daquele pra chamar de meu ou de nosso. No meu coração um sopro de paz e mais vontade de transmitir amor por aí.

domingo, 13 de agosto de 2017

A calma do tempo

As pessoas têm pressa.
O tempo todo.
Às vezes me pergunto se já se permitiram sofrer.
Esse tempo entre tempos de espera pro tempo passar.
Onde não há pressa,
nem muito o que fazer.
Onde você aprender que a vida é devagarinho,
e que é só devagarinho que o que realmente importa,
fica.
E a pressa, essa imediata, vai sumindo aos pouquinhos, até virar poeira do tempo em um coração resiliente.




quarta-feira, 7 de junho de 2017

de lá

do mar
de lá,
o que ficou é saudade.

segunda-feira, 1 de maio de 2017

Me quedo allá

Que me desculpe Peralta,
pero yo me quedo allá.

Fico lá de alma e amor
na luz clara da manhã,
no dia que vai embora cedo,
no calor eterno de meio dia.

Fico lá de todo coração
na orla de praia nem tão bonita,
na montanha russa das ladeiras,
nas colores que colorem minha vista.

Fico lá no meu olindar,
no meu antigar,
fico lá,
porque sou de lá
e não sei se sei ser de outro lugar.

terça-feira, 25 de abril de 2017

Pássaro da manhã

Na gaiola do ser,
de alma desabrochada,
nos frios arames que me rodeiam,
não posso sair.

Mas dentro do ninho,
de dentro da gaiola,
de dentro da varanda,
eu, de dentro de mim,
estou mais quentinha
que os urubus que avoam rasos por aí.

sexta-feira, 21 de outubro de 2016

rota de fuga

o passado faz uma curva
e volta,
bate nos postes do peito,
acende a luz do farol
involuntariamente
e apita um som estridente,
chamando toda a atenção da rua.

o passado faz uma curva
e volta,
volta pr'onde ele veio.

vai ficar por lá e descansar,
porque o passado criou o presente,
e o presente é estrada cheia de direções.

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Immigro

migram-se os pássaros
através dos ventos,
os elefantes
através dos desertos,
as baleias
através dos oceanos,
migra-se a gente,
a gente bicho gente,
pra poder sair de si
e buscar mais do que
o que a gente é.

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

ser cheiro

amar sentir
o cheiro da respiração
de quem se ama,
é querer,
de um certo jeito,
invadir o mundo de dentro dela.

sábado, 13 de agosto de 2016

Despertarse y despedirse



Depois de ter passado dois dias conhecendo um pedaço de Montevideo e de ter andado muito no dia anterior, caminhando a todos os cantos da capital uruguaia para ver o que aquela cidade deixaria no meu coração, me pego sentada em um ônibus cruzando o litoral uruguaio até a Colonia del Sacramiento, onde lá, eu e Raul, pegaríamos um barco para atravessar o Rio de La Plata e enfim chegarmos em nosso destino final – Buenos Aires – onde decidimos arriscar e começar uma vida totalmente do zero.

Enquanto cruzo as estradas uruguaias de ônibus, sentada na cadeira do corredor, podendo ver Raul dormir na cadeira do outro lado do mesmo corredor, coloco para tocar no celular a trilha sonora de Elizabethtown. Escutei essa mesma trilha repetidas vezes durante a vida, mas pela primeira vez me sentia em sintonia com a história a qual a trilha sonora pertence. No filme, Drew recebe um conjunto de mapas e CD’s de Claire, especialmente planejado por ela para que Drew pudesse cruzar as estradas dos Estados Unidos se despedindo de seu pai que morrera há pouco e abrindo seu coração para uma nova visão de mundo ao qual Drew foi arremessado, depois de quase se suicidar por causa de um trabalho mal reconhecido. Elizabethtown é sobre vida e morte. A sua trilha sonora demonstra isso claramente nas músicas escolhidas. Escolhi essa playlist para aquela minha viagem porque sentia como se uma antiga eu estivesse morrendo, ficando pra trás. Era a eu, menina e de madrats nos pés que ficava para trás, que ficava em Olinda, nas ladeiras daquela cidade boêmia, louca e aconchegante. A menina do quarto nem sempre muito arrumado, de poucas preocupações e casa de papai, que não precisava pagar as contas no final do mês, e podia apenas abrir a porta e encontrar o irmão querido pra ajudar em mais algum problema no computador ou no coração.

Eu via todas aquelas paisagens passando com rapidez pela janela do ônibus, as placas em espanhol, o verde ouriçado dos campos uruguaios, algumas pontes que protegiam seus rios de direito com esmero, enquanto todas aquelas canções folks e românticas bombardeavam minha cabeça com lembranças, sonhos e saudades – não as que já possuía, mas as que com certeza viria a sentir com o passar do tempo e da distância que as coisas iriam tomando, a distância dos amigos, do cotidiano recifense, do cotidiano em família -. “É, agora é pra valer. Sou eu por mim mesma. Sem mais o calor da casa que se nasce. Vou fazer o máximo possível para ser feliz”, eu pensava.

Pela primeira vez na vida, eu estava saindo de casa. De casa, família. De casa, amigos. De casa, Nordeste. De casa, Brasil. De casa, língua portuguesa. É bem verdade que eu estava indo de mãos dadas com um companheiro de amor intenso e verdadeiro, mas eu não conseguia parar de pensar: “Pai, Vini, me perdoem por não conseguir ficar. Encontrei meu amor, e desejei seguir minha vida para novas jornadas. Preciso encontrar meu lugar no Mundo. Preciso engrandecer as janelas da minha alma”.

Eu fui, mas levei a chave de casa na bolsa. Coloquei ela no bolsinho da minha mochila de costas, depois de ter trancado pela última vez a casa em que nasci e vivi até meus 26 anos. Não a casa: lugar de cimento e tijolo, mas a casa: lugar habitado por quem é família, por quem conviveu diariamente com você, te vendo passar por todas as fases clichês de infância e juventude. Levei a chave de casa, pra sempre saber pra onde voltar.


Me despedi com rapidez e saí, pronta para saber o que a vida esperava de mim. O que eu esperava da vida ainda era uma incógnita. Mas levava comigo minha consciência, em estado de desperto, e minha vontade imensa de desbravar o Mundo.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

Sendo feliz

o sol;
o mar;
a orla;
a rua;
o quarto (dividido em dois);
a cama (dividida em duas para dois);
o sorriso;
o beijo;
o estudo;
as novas ideias;
a ansiedade que as vezes ainda corrói;
a mensagem virtual;
a barba;
as brincadeiras sem fim;
a casa;
o ócio;
a maconha;
Olinda;
o cheiro;
as famílias;
os planos;
as cervejas e as cachaças;
a preguiça;
o sono;
a netflix;
o trampo;
os dias mais felizes;
o amor.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

Ciclo

tudo vai mudar,
e não adianta eu tentar segurar o presente com toda essa força,
mudar é inevitável.

e vai fazer parte.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

Manhã

A fresta na janela me acorda, cedinho
e eu desperto, já inundada de amor,
como se ele pudesse entrar e fazer morada em cada poro aberto do meu corpo.
todo dia, acordo e te vejo ao meu lado,
ainda dormindo,
com uma perna em cima de mim,
ou de algum jeito, abraçado desajeitadamente pelo sono.
Todo dia,
acordo com a certeza de estar com o coração cheio,
devo ter secado o mar, e todos os outros corações cheios do Mundo,
o amor todo parece que agora mora em mim.
E eu pareço que agora moro em você.



quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

Sentir ou Uma resolução de um ano de sentidos

Finalzinho de ano, e dia desses me peguei pensando sobre tudo o que esse dois mil e quinze foi pra mim, enquanto andava de bicicleta em baixo de um céu laranja-rosado, pegando a mesma rota que passou a ser parte de mim esse ano, assim como o destino final dela.
Esse ano foi um ano incrível pra mim. Sim, incrível. Acho que a partir de agora vou passar a acreditar mais nos anos ímpares, e duvidar um pouco dos pares.
Esse ano foi ruim. Foi ruim pro Mundo, e ruim pra esse brasilzão, é bem verdade. E olha pra minha vida estudantil/profissional também não foi lá grande coisa. Tivemos muitas decepções. Mas ao que cabe minha vida pessoal, minha aprendizagem como ser humano, como uma pessoinha que quer aprender cada vez mais coisas boas, pra essa parte, foi uma iluminação.
Em dois mil e quinze, eu aprendi a ser mais eu, e a voltar a me amar muito. Em dois mil e quinze, eu deixei toda a mazela de um dos piores anos da minha vida, o ano passado, e coloquei a cabeça pra cima, e as energias boas pra dentro de mim. 
Esse ano eu aprendi a acreditar mais em mim mesma,e conhecer cada vez mais coisas, e a ser forte e continuar forte nas minhas decisões. Esse ano eu viajei muito. Gratidão pelos lugares lindos que passei. Buenos Aires. São Paulo. Goiânia. Chapa Diamantina (e toda a estrada que une Recife a ela). João Pessoa (e o amor que recebi em um fim de semana imensurável). Macuca e seus ácidos com muito amor.
Em dois mil e quinze, eu conheci pessoas boas e fiz amizades, algumas passageiras, outras que quero levar pro resto da vida. Em dois mil e quinze eu livrei meu coração de todo peso e o deixei aberto pro Mundo, e me joguei, me sujei, fiz o que queria. 
Em dois mil e quinze tive várias primeiras vezes. Isso não pode deixar de existir nunca!
Em dois mil e quinze, eu descobri que o amor ainda é possível, que ele existe e só tá solto por aí, esperando que você de repente no meio de uma tarde de terça-feira resolva ir ali de lado tomar uma cerveja, e aí, isso pode mudar todo o seu planejamento. Porque bom mesmo é não fazer planos. É esperar pra ver o que vai rolar, e se guiar pelo seu coração.
Em dois mil e quinze, eu aprendi que o amor é muito maior, é algo que não se nomeia, não se mostra, não se define. Só se sente.

Em 2016, quero sentir mais, pensar menos. Quero inventar novas formas de ter certezas. Quero amar mais. Quero aprender mais. E quero me deixar surpreender pelas coisas boas que a vida traz pra gente.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

Sexta a noite

As saudades se acumulam
como montes de pedras roladas pelo chão
viver, cada dia, e sentir cada falta
momentos que queria reviver, re vi ver
não só dentro dessa caixa
queria resentir,
saudade.

domingo, 22 de novembro de 2015

Marca de amor




um anel no meu dedo
e uma ferida no meu peito
é preciso lidar com ela por tanto amor
amor que me gerou
a falta da presença, não apaga a marca do amor
o aconchego dos braços macios e a pele branca
cheia de pintinhas
o melhor cheiro do Mundo ainda não saiu do meu nariz
[e nunca sairá]
dormir no chão, te esperando lavar a louça a noite,
te esperando pra me pôr pra dormir
enquanto escuto tua aliança batendo na porcelana de cada prato
[como eu amava esse som - ainda posso ouvi-lo]
não poder escutar Titãs e não lembrar de você, de cada detalhe
do teu sorriso [que sorriso!]
É olhar pra lua cheia, pra infância, pras fotos
é sentir parte de você sem estar
Feliz é me olhar no espelho e te ver [e como é triste!]
Feliz é quando alguém diz que cada dia mais me pareço contigo.
Te queria aqui pra... pra tudo.
É falar de ti no passado que a dor não passa
e a saudade me corrói.

sábado, 26 de setembro de 2015

Faz verão no lado de dentro da dúvida


Mil revoluções lunares
me tiram de órbita e me levam prum rumo outro.
No tempo que fazia frio do lado de dentro
e, então, fechei a janela tão apertada que só o que sinto agora é o bafo da vida.
Tô agachada num canto, meio perdida, meio achada
esperando uma carta de tarô que acerte meu destino,
pr'eu poder deixar de me perder
nesses ônibus que não param de fazer voltas pela cidade.
Nesses tempos, pego um sem direção
e deixo pra trás, apagada, a certeza de não poder ter dúvida,
e, na dúvida, vou morar de vez.

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Do que esqueci

Eu tinha uma cômoda no meu antigo apartamento. Ela era pintada de branco e tinha uns puxadores de cerâmica lindos, com detalhes de flores rosas e um círculo dourado rodeando todo o puxador. Um dia, quando mais nova, escrevi uma carta, ou algum tipo de texto, e coloquei por entre duas gavetas dessa cômoda, num lugar escondido, como por um segredo. Não lembro bem o motivo d'eu ter feito isso, mas lembro que comecei a imaginar um conto a partir daquilo para escrever. O conto seria sobre alguém que amava muito alguém, e escrevia uma carta para a outra se declarando e escondia essa carta numa cômoda, mas a outra pessoa, a que era amada, só encontrava essa carta no final de sua vida, por sorte, naquela cômoda, que esteve a sua frente todos os anos anteriormente vividos.
Eu não escrevi esse conto. Assim como milhões de outros que criei na minha cabeça mas não passei para o papel. E não lembro também onde foi parar minha cômoda branca de puxadores de cerâmica. E nem se o texto secreto que escrevi continuou dentro dela.

domingo, 30 de agosto de 2015

Transcender

Não deve ser humano, já sei que não é mundano.
Nos sujamos pelas calçadas, bebemos sentados na sarjeta,
tragamos mais um cigarro.
Experimento os sabores cruéis do Mundo,
e te vejo tão celestial.
Não deve ser desse mundo o que brilha nos teus olhos, é além.
Te sinto como uma revolução,
que vai destruindo tudo o que tinha de velho e empoeirado
e que me enche de uma nova luz.
Se vamos matar Deus ou comê-lo eu não sei,
mas acho que há uma partícula imensa de uma energia cinestésica que te atravessa o peito
e me atinge.
Me atinge de uma maneira doce, prazerosa, cósmica.
Como se estivéssemos mesmo com uma força no peito
que nos puxa, de frente, um pro outro. E arrepia.
Me sinto transcender.








quinta-feira, 20 de agosto de 2015

I'm a mess

Eu sempre achei bonitas aquelas pessoas bem organizadas,
que levam paninho dentro da bolsa, e mantém as unhas limpas e pintadas,
Mas nunca consegui ser uma dessas pessoas,
minhas coisas são uma bagunça, e minhas unhas estão sempre roídas.
Eu até acreditava que com o passar dos anos eu tomaria um pouco de tento,
e passaria a ser um pouco mais organizada. Mas as coisas permanecem iguais.
Eu tô sempre perdida dentro de mim, por cima da minha bagunça,
acho que prefiro o que não tem ordem, nem planejamento,
o que vem do nada, do acaso e faz você se perder, pra depois se achar de novo.