quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Rumo

Era simples, tinha acabado em uma estação.
Foi por algum motivo estúpido, uma brincadeira do acaso. Num certo dia se pôs a andar pelas avenidas da cidade. E aquela cidade era cheia de avenidas. E de vez em quando, uma hora ou outra, ainda encontrava ruazinhas coloridas e se enfiava nelas por alguma razão desconhecida. Era isso, ela não tinha mais razões para ser, e apenas foi. Andando pela cidade sem motivo específico. E sem motivos específicos escolhia suas direções. Brincava naquela tarde anoitecida. Enquanto caminhava sem rumo, lembrava dos cheiros, os cheiros das pessoas que passaram por sua vida, o cheiro dos dias que preencheram sua vida. Lembrou que sexta tinha um cheiro de final de tarde, e que a quarta de carnaval teimava em ter cheiro de uma segunda de manhã. Por um instante lembrou da mania de um amigo seu, e assim sucessivamente lembrou-se de cada mania que as pessoas tinham. Era uma colecionadora de manias. Vivia a rir delas, as adorava, as devorava.
Depois das lembranças que se seguiram em sua mente, passou a esquecer ou fingir esquecimento de todas elas. Esquecia seu nome. Como era mesmo? Como era mesmo o seu nome? Ofélia? Joana? Clarice? Todas poderiam ser ela, ou ela poderia com o tempo ser todas. Começou a ininterruptamente mentir para si mesma. De uma certa forma que suas mentiras acabaram virando mais verdades do que suas verdades, e até mais divertidas.
E de uma tarde anoitecida, passou-se a várias tardes cheias. Cheias de nada. Foi então que se viu em uma estação. Presa. Sentou-se, não se sentava há algum tempo. Esperou a próxima direção a tomar. Cansou. Pôs-se a andar, então, por aquela estação, que não se podia chamar de sombria, nem de feliz, era apenas uma estação e pronto. Andava com as mãos arrastando no portão, entrecortando o ferro laranja do portão. Era a sua mania preferida. Um colecionador tem as suas preferências. A sua era a de arrastar a mão pelos portões que passava. Sua própria mania.
Então não se sabe o tempo que passou ali. O que se sabe é que ali conheceu e aprendeu a conviver com muitos passantes. Gente que ia e vinha. Que embarcava e desembarcava. Havia aquelas que estavam na estação dia após dia. E ela semana após semana deixava-se ficar. Já era conhecida na estação. Não sabia se era isso mesmo. Mas o sentimento de invisibilidade sempre foi maior do que qualquer outro. Tomou a estação como abrigo, via os trens chegarem e partirem, as pessoas-passantes chegarem e partirem. Continuava seca, um peso morto que afundava naquela estação.
Foi então que num súbito dia, um trem parou por ali, aliás um trem que ela já tinha visto várias vezes e até tivera muitas oportunidades de conhecê-lo melhor, de analisá-lo, mas tinha jogado fora as chances. Preferia tentar entrar em outros trens que passavam por lá. Analisava suas cores; suas formas; seu interior, que às vezes eram cheios, outras eram vazios. Mas o trem daquele súbito dia, ela nunca antes tinha parado para analisá-lo, nem se quer sabia se a cor dele era marrom-céu ou marrom-nuvem. Agora pudera perceber, o trem a que analisava cuidadosamente era de uma cor marrom-terra tão forte que reluzia o marrom-terra de seus olhos. Por um momento reparou, então, que tinha algo em comum com aquele transporte público, tinha a cor dos olhos idêntica à cor da ferrugem do trem.
Foi um marrom-de-terra-vivo que os uniu.
Ela não podia mais negar para si mesma o quanto gostaria de entrar naquele seu novo enigma. Cheia de uma força surpreendente se colocou dentro do trem. Lá pôde ver sua estrutura, seus bancos cheios de carinho, suas passagens tão aconchegantes. Era ali. Era naquele trem que deveria partir. Ao contrário do que fazia com os outros trens que conhecia, ela ficou. Não saiu mais de lá de dentro. Encontrou a razão que perdera há tanto tempo. Todos os cantos daquele trem exalavam um amor tão intenso que a deixou boba a ponto de pensar que todo aquele amor era por e para ela. Talvez fosse. Talvez seja sim. E depois de muitas tardes anoitecidas, encontrou uma manhã clara.
Foi por causa de uma brincadeira do acaso que ela chegou à estação. E por uma brincadeira do destino encontrou o seu trem adequado e partiu. Naquele dia, roubou o trem para si. A felicidade estava novamente em suas mãos. Tomou seu rumo.
Era um sábado-domingo.