quinta-feira, 22 de abril de 2010

Sobre estar na faculdade


Que curso você faz? Cinema? Como você é sonhador! Publicidade? Mas que capitalista! Jornalismo? Isso é coisa de gente antiquada! Rádio e TV, ainda existe esse curso? Você fuma um? Nem o careta? Odeio coca-cola! É coisa de capitalismo! Mc Donald's? A culpa toda é dela! Que tipo de música você curte? Eca! pagode é muito ruim! E Brega então... Gosto do manguebeat! De samba! Metal! Tem orkut? Mas, que cadeira tu tá pagando ainda? O professor não me deu meio ponto! Reprovei! Qual teu bloco? A? C? M? Qual a vibe do fim de semana? Amo fotografia! Tu tem flickr? Antigo ou Olinda? Vamo tomar uma! Vamo tomar uma! Vamo tomar todas! Vou chegar! Já? Vamo beber!

quinta-feira, 15 de abril de 2010

De uma viagem musical

Depois de esperar mais ou menos quarenta e cinco minutos, finalmente peguei o ônibus.
Paguei ao cobrador com muitas moedas, sem nenhum "boa tarde", passei a catraca. "É que hoje em dia ninguém tem mais tempo de se cumprimentar", pensei.
Não havia nenhum lugar para sentar, só a escada do meio para entrada de cadeirantes que estava vazia, e apesar de ser parte integrante do chão do automóvel, era uma vaga para sentar. Me sentei nela, sem pestanejar. Estava triste por os últimos acontecimentos, pelos caminhos que minha vida estava seguindo, e um chão de ônibus não seria pior que aquilo tudo.
Foi aí então, que como de costume, fiz da viagem de uma hora e quinze minutos até minha casa, um lugar para ter uma conversa comigo mesma. Assim cara a cara, seria eu na acusação e na defesa de mim mesma. E era tão comum tal cena. Quantas vezes já não havia chorado encostada nas janelas de ônibus, enquanto a cidade passava sorrindo por mim, e quantas decisões já tomadas naqueles bancos de passageiro?!
Estava novamente fazendo uma análise fervorosa sobre mim e sobre a vida que estava sendo mal-criada comigo nos últimos dias.
Já na metade do caminho, entra um senhor, que assim como eu, decide fazer companhia à escada e senta desconfortavelmente nela, ficando assim ao meu lado. Eu continuo com minha conversa interna, sem notar muito o senhor que acabar de sentar junto a mim. Até que ele começa a cantarolar uma música em forma de assobios. Então minha atenção é imediatamente tomada e todas as partes de mim (até aquelas reclamonas e tristes com o Mundo) também.
O senhor com ar de cansaço assobiava uma dessas valsas que provavelmente tem o nome em forma de número (valsa 36, valsa 12) e que embalou algum filme romântico antigo, mas que na hora por mais que eu reconhecesse a melodia, não conseguia nomeá-la, nem fazer uma ligação concreta com filme algum.
Ele continuava assobiando e repetindo a mesma canção por diversas vezes, e quanto mais eu ouvia o assobio, mais conseguia me sentir melhor.
Naquele momento, lembro-me de querer aquele assobio perto de mim sempre. Eu queria aquela canção cantarolando no meu ouvido pelo resto da minha vida. Ela me faria feliz. Cheguei a conclusão que só ela poderia curar minhas feridas, e sarar minhas dores, quando elas existissem. Era tão perfeita e extremamente e indiscutivelmente bem executada. Era como se fosse por ela, que eu estivesse ali, naquele exato momento. Só para encontrá-la! Só pra isso! Tudo o que eu passei até hoje, foi exatamente para chegar naquela hora e me deparar com algo que fazia parte de mim, mas que estava externo. Precisava recuperar aquele meu pedaço. Precisava daquela canção, sendo executada daquele jeito, em forma de assobios eternamente comigo!
Mas foi aí que, passado vinte minutos de completo encanto e deslumbramento, minha parada de ônibus chegou. Infelizmente tive que acordar daquele sonho. Tinha que abandonar aquele assobio, que na verdade nunca foi realmente meu.
Enquanto o senhor com expressão de cansaço continuava sua viagem musical, eu me levantei e desci.
E a vida voltou ao normal. Sem "boa tarde", valsas ou sonhos efêmeros.

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Ver para crer



Estavam ali um em frente ao outro, o que os separava era uma distância de mais ou menos três metros e uma coragem que teimava em não aparecer. Mas mesmo assim seus olhos estavam grudados um no outro, como há meses havia acontecendo. Sempre era a mesma forma de olhar, o mesmo sorriso dos dois. Apesar de não estarem perto, seus olhos já se enamoravam, se sentiam, se tocavam. Era como se entre eles houvesse um Mundo particular só pros dois, e que só os dois tinham passaporte para se estalarem nele. E ali, naquele momento estavam instalados, morando um no outro naquele Mundo só deles.
Mas foi então que ele finalmente se levantou e caminhou até ela, pela primeira vez invadindo o espaço que se estabelecera entre seus olhares. E quebrando aquele Mundo particular utópico deles, ele perguntou:
- Afinal, qual é a tua?
Ela, sorrindo, respondeu:
- Que você caia na minha!