segunda-feira, 31 de maio de 2010

Josefa Três por Quatro


 Apesar de seus vinte e três anos, Josefa gostava de satisfazer seus desejos primários. Vivia brincando com a vida. Toda arte dramática na sua mão virava comédia. E adorava criar milhões de história, milhões de “e se fosse assim...”.

 Um dia comum de sua vida era sentar-se numa mesa de bar, tomar a maior quantidade de cerveja que seu dinheiro pudesse lhe servir e rir com e de seus amigos. Rir não, gargalhar! E enquanto todos conversavam sobre assuntos comuns, Josefa ficava imaginando o que cada uma daquelas pessoas faziam em circunstâncias diversas.

 Imaginava a forma como eles dormiam, o que faziam quando estavam sozinhos, como seriam enquanto tomavam banho. Cantarolavam? E brincava de como seria as tantas situações dessas vividas junto a eles.
Era tão vazio somente olhar-los e analisar-los. Ela queria mais! Ela queria era entrar na mente de cada um deles, desvendar toda a beleza que tinham de singularidades e descobrir todo o mistério sujo dos pensamentos humanos. Queria provar até o lado obscuro das imaginações dos seus amigos.
Talvez assim ela se sentisse comum. Talvez, enfim, diferente.

 Mas já que não podia adentrar no imaginário de outrora, analisava cada mania e cada gesto. Quando não se perdia nas suas próprias palavras mentais, prestava atenção a tudo que os outros diziam.

 E depois enquanto vinha cambaleando entre as ruas frias, do bar até seu kitnet, onde morava sozinha, repassava cenas; imagens, quantas as vezes que pudesse. Entrava no seu quarto, abria as cortinas e ficava horas conversando com as estrelas no céu, contando-lhes sobre seu dia e as várias formas que poderia ter vivido o mesmo.

 Mentia dizendo às estrelas que no caminho de volta conversou com um mendigo, ou que tinha encontrado uma carta de amor, daquelas nunca entregues, no chão do banheiro do bar. Inventava mil histórias, até poder adormecer e viver as aventuras gostosas de seus sonhos bonitos.

 Nos seus sonhos ela vivia a mistura de momentos passados e momentos desconhecidos. Reencontrava antigos amores; paixões não correspondidas. Unia o beijo de um de qualquer dia com o do cara perfeito.
Nessa noite, o sonho de Josefa não foi bonito. Sonhou estar com alguém numa praia deserta, e enquanto sentia a química e o carinho dele, olhava as estrelas percebendo-as sorrirem para ela. Respondeu o sorriso das luzinhas brilhantes com uma piscada. O cara virava um monstro em cima dela. E lá de baixo Josefa podia escutar as estrelas cantando “eu tenho uma boneca sim, que veio de Paris pra mim, ela tem um bom chapéu e também dois pares de véu”. Ela reconheceu a canção, era a sua preferida na infância, e continuou a música a uníssono “eu boto ela em pé, não cai. Ela chama mamãe, papai...”
 
 O cara já tinha virado um monstro e a devorava.

 Acordou agoniada na madrugada. Olhou para o céu, as estrelas continuavam lindas, sem sorrisos e bocas. Meditou um pouco e voltou a dormir. Aquele pesadelo anunciava, na verdade, uma ótima fase que estava por vir em sua vida.

 No dia seguinte, depois de acabar de pintar mais um de seus quadros abstratos, se arrumou para ir se encontrar com seus amigos.

 No bar de sempre notou a falta de alguns deles, mas ficou feliz por ver aqueles que puderam ir. Conversa vai; conversa vem, e foi quando ela percebeu que dois de seus amigos comentavam sobre quem achavam, de suas colegas e amigas, mais bonitas. Ela participou do assunto.

 Euclides dizia achar uma delas a mais elegante. ‘Linda de morrer’ – dizia ele. Charles concordava: ‘Aquele par de olhos pretos são belíssimos’. Josefa apenas sorria e aquiescia com a cabeça confirmando. Ela era mesmo linda!

 Charles então tocando o ombro do seu companheiro perguntou a ele ‘E Josefa? Você a acha bonita?’. Euclides riu. E antes mesmo dele responder, o primeiro disse ‘Eu acho!’. E apesar de estar tocando o companheiro, Charles tocava Josefa com o olhar. E pela primeira vez ela percebeu aquele olhar dele, um olhar doce (se é que poderia chamar aquele olhar apenas de doce. Certamente seria pouco! E tentando buscar agora um adjetivo que caracterizasse bem o olhar de Charles, vejo o quanto nenhum seria capaz de nomear tamanha beleza). Josefa envergonhada sorriu, dando fim ao assunto.

 Depois desse dia, Josefa começou a olhar Charles de forma diferente. Começou a percebê-lo. Certo que ela sabia que vários de seus amigos a achava bonita, e até já tinham dito isso. Mas a forma com que ele tinha dito era única, era diferente. Charles sempre esteve ali perto, mas agora ela podia perceber aquele seu jeito, seu olhar. Não, não era seu olhar para Josefa, era o olhar que Charles tinha para o Mundo que chamou sua atenção.

 Começou a escutar tudo o que ele dizia, e a notar como ele era comum para ela, o que demonstrava ser tão parecido com ela. Parecia ter tido ele a vida inteira ali do lado, parecia que tinham crescido juntos, que tinham brincado e trocado segredos na infância. Era aquela sensação de quando algo já lhe é familiar de que tanto falavam, mas que Josefa nunca tinha sentido. Quando trocavam algumas palavras, depois do acontecido, Josefa percebia o quanto eles se entendiam. Como se pareciam!

 Ela passou a sonhar todos os dias com ele, e abraçar e a olha-lo todos os dias. Mas por mais que ele fosse presente em seus pensamentos, pouco o era no seu dia-a-dia. Quando se encontravam, trocavam apenas algumas frases. Quando muito bebiam juntos.

 Mas mesmo assim Josefa encantava-se cada dia mais com ele, e pela primeira vez tinha paciência. Ela o esperaria o tempo que fosse preciso para que ele pudesse nota-la da forma como ela agora o notava. Ora, se Josefa esperou vinte e três anos para encontrar um amor real, o que seria mais alguns dias ou meses para ela?
E ela agora entendia o que seu pai lhe disse quando mais nova enquanto queixava-se que tinha cansado de viver, numa fase deprimida. Seu pai tinha lhe dito ‘Ah, Josefinha, daqui há pouco tu estarás amando e querendo viver duzentos anos’. Ela ainda não tinha tamanha vontade de viver, mas sabia que quando estivesse com Charles, amando e sendo amada, sentiria a vontade de viver os tais duzentos anos que seu pai lhe falara.

 E agora Josefa não sentia mais solidão. Pois mesmo, ainda, sozinha, tinha Charles no seu coração.

2 comentários:

  1. "Unia o beijo de um de qualquer dia com o do cara perfeito."

    escreve muito, muito bem, PARABÉNS !

    meu blog é de literatura também, passe por lá, seu comentário é bem vindo: http://preludiopostumo.blogspot.com/

    e mais uma vez digo a você que escreve de maneira única e muito bonita !

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  2. Belo belo conto!
    Adorei cada detalhe.
    Parabéns![2]

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