sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Uma mesa de madeira, roupa nova e cheiro de tinta fresca

Pincéis, massa, presentes, luzes piscando, cheiro de casa recém-pintada, o cheiro de frutas cristalizadas. Tudo parecendo bem novinho. O que na verdade era novo, era a esperança que renascia, assim como o ano. Tudo jogado no chão, os presentes se espalhavam, no som tocavam Cd's de tudo quanto era estilo, ritmo ou qualquer distinção bestas dessas. A música entrava na gente, enquanto todo mundo chegava com roupa nova e cheiro bom. Todo mundo se reunia no fundo da minha casa grande, recém-pintada, numa rua onde eu costumava brincar a tarde inteira. Correndo de um lado pro outro, às vezes espiando os vizinhos, quando não, fazia planos para salvar o Mundo quando fosse grande com a Ná. Nesses dias em especial, a família inteira se reunia naquela mesa toda de madeira de três metros (essa medida sempre foi meu ponto de partida de outras medidas), a mesa que eu me deitava em cima para inventar passos das coreografias que fazíamos e que logo ao lado dela ficava a rede que eu passava o fim de tarde escutando Sandy e Júnior e cantando com toda vontade do Mundo. Lembro de um tempinho depois de ter passado umas férias em Campo Grande e ter sido apresentada à 'boa música' como dizia meu tio Júnior, de estar na mesma rede interpretando as músicas de Chico e de Caetano. Mamãe me explicava o porquê do Cálice de Chico, entre outras coisas. Nessa época eu falava mamãe, papai, carne puxando o r arrastado de matuta do interior de São Paulo. Já tinha perdido o mainha e painho tão delicioso do Recife. Minha vida era a cidade limpa, pequena e fria. Fria: ah, como era ruim acordar de seis da manhã num frio de sete graus e ir pra escola! Mas os fins de anos eram sempre quentes, sem umidade alguma, quase sufocante durante o dia, seco. Comecinho de Novembro as flores amarelas do Ipê já começavam a desabrochar e deixava mais lindo ainda o trem que passava na esquina da minha casa e que fazia a minha casa tremer. Dezembro, a casa toda já cheirando a tinta fresca enchia-se de gente(da minha família cigana, espalhada por esse Brasil hoje em dia), e enquanto trocávamos presentes e tentávamos adivinhar quem tinha tirado quem naquela brincadeira de esconde-esconde, Katiuska corria de um lado pro outro procurando por um carinho qualquer, no seu coração de cão, ela com certeza sentia o amor que rolava solto de um corpo pro outro numa família tão bonita e que podia se dar ao luxo de se reunir toda para passar as festas de fim de ano. E eu, pequenina, nos meus sonhos de criança, achava tudo mágico. Acho, que ainda hoje, meus olhos brilham feito menina ao lembrar desses dias de verão.

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