terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Por fim: lixo

Decidiu largar tudo. Jogou fora seu relógio de marca, suas roupas de grife. Rasgou em pedaços seus ternos sempre limpos que usava para trabalhar. Quebrou sua televisão e seu notbook em uma cena digna de filme. Estraçalhou cada objeto de seu apartamento de cobertura no bairro das Graças. De objeto em objeto, ele foi se livrando de toda a riqueza de sua vida. Jogou pela janela seus óculos, sua maleta de couro fino, seu barbeador inglês, seu passaporte, seus documentos.

Havia acabado de se demitir da empresa em que trabalhava há 12 anos, era presidente de uma grande empresa do ramo da tecnologia. Livrou-se do frescor do ar-condicionado, da cadeira de couro, do salário alto. Abandonou seu apartamento, sem dizer  ninguém o porquê. Morava sozinho, e por isso não tinha a quem dar explicação. Rasgou todas as suas fotos e de seus familiares e quebrou todos os espelhos da sua casa. Guardou um pouco de dinheiro no bolso, e com a roupa do corpo, ganhou a rua.

Logo virou mais um entre tantos mendigos nas ruas do Recife, caminhava por entre as avenidas da cidade, com alguns trocados conseguia comer em um beco imundo no centro, uma comida barata em pratos sujos. Misturou-se com os outros moradores de rua, encontrando um lugar legal onde dormir na praça do Diário. Seu dia ficou prático: acordar pela manhã sem hora marcada, almoçar sem hora marcada, vagabundear pelas ruas, arrumar em alguns dias por sorte uma confusão, e correr dos policiais que lhe perseguiam quando decidia roubar uma fruta na feira, e a noite conseguir uma boa transa por dois reais.

Ele estava junto de todo aquele lixo, fedia como tal. Misturava-se com toda a nojeira da cidade grande, revirava o lixo, fazia coleções de tampinhas, de latas, de pentes encontrados no lixo. Virou sua mania, porque entre o lixo ele se encontrava, se reconhecia. Ficou conhecido entre os mendigos do centro como Boca de lixo, ele ria com seu apelido, gostava dele e cada dia mais sua enorme montanha de objetos inúteis ia crescendo, um mais sujo que o outro. Vivia cheirando a cana, bêbado lendo jornais velhos e imundos, com seu suor escorrendo por todo o corpo, pegajoso.

Corria do banho, do serviço social, da comida fresquinha, do cigarro novo, de roupas limpas, de jornais novos, de notícias alegres, de talheres e pratos limpos, de cerveja gelada.

Queria a podridão do Mundo, porque ele era a própria podridão. Só havia um sentido a seguir: o do corpo sujo e da cabeça vazia.

Enfim, a vida era boa.