terça-feira, 6 de maio de 2014

Amaldiçoadas sejam as mortes por espírito (ou A menina que estava morta e não sabia)

   Acordou num dia sentindo uma dor na barriga, uma dor que não cessava. Achou estranho aquilo, não tinha comido nada que pudesse ter causado toda aquela dor no dia anterior. Levantou-se, e correu pro banheiro. Tomou um remédio e esperou que aquela dor passasse. O que passou, foram os dias. Mas, a dor, mesmo com realces mais graves e mais leves, continuava ali, intacta.
   Com os dias se acabando, e outros chegando, foi percebendo diferenças imensas em seu corpo. Sua cabeça doía de vez em quando, seu olho ficou dias sem funcionar direito, algo como um embaralhamento das imagens que se via, sua barriga cresceu um pouco pra frente, seu cabelo secou. Tudo nela, de alguma forma, estava ficando diferente e assombrado.
   Para piorar, seu coração começou a apertar, e parecia que ia explodir a qualquer momento, ou quem sabe sair por uma narina no meio de uma madrugada fria e chuvosa (ou quem sabe no meio do ônibus num dia bonito e claro).

    Não sabia o que era. O que ela sabia mesmo, era que de repente, se olhar no espelho ficou completamente desagradável, chegou a tentar um ou dois penteados diferentes, mas nenhum caia bem com aquela nova aparência. Sentia-se cada dia mais ansiosa. Uma ansiedade de esgoelar a garganta, entupir as veias arteriais e ficar perto de explodir em pedaços de carne.
   Acordou um dia, e não via mais beleza em nada. Nem em si, nem nos outros. Nem nos dias que se passavam, nas novidades que aconteciam, nos pequenos detalhes que amava outrora em admirar.

   Os dias tornaram-se meses, e ela decidiu que estava doente. Saiu a procura de médicos e segundas opiniões. Todos a sua volta, a acham estranha, fria, feia. - Está doente, com certeza! diziam um ou dois. -Está precisando de um descarrego. Isso é coisa de espírito ruim! diziam outras senhoras malucas da vizinhança.
   A menina, em seu canto, ficava cada dia mais pra dentro. Sua boca deixou de sorrir numa bela tarde na praia. Ela tentava e tentava, forçava o sorriso, puxava a boca com as próprias mãos, mas o sorriso simplesmente não se abria. Nem um dente se quer, nem um meio sorriso. Nada.
   Deixou de ler, porque não sabia mais como. Deixou de brincar, porque não tinha mais pique. Deixou de lado as amizades, porque não tinha mais sobre o que conversar. Deixou de se arrumar, porque não tinha mais beleza pra mostrar.

   Até que um dia, dentre os seus sonhos incomuns e aterrorizantes, viu um leão falante, bravo e cheio de feridas pelo corpo lhe dizer: -O que você tem, menina, é morte. Você já morreu. Não vê? Você só precisa aceitar!
   No outro dia, a menina assombrada, correu para contar do sonho a um mago local, que tinha três sorrisos e uma barba trançada em arco pendendo do rosto. E o mago, com seu jeito aturdido de interpretar, disse a menina que enfim sabia o que ela possuía, que a menina estava mesmo assombrada, e logo deu o seu diagnóstico:
- Estas morta menina. E nem se quer fostes para outro mundo. Estás morta. Mortíssima. Não tem remédio, nem cura, nem dança, nem bença que te traga de volta. Não tem céu, nem inferno pra você. Você morreu, da pior maneira de se morrer. Sua alma não será salva, menina, porque não a tens mais. Tua morte é a de quem morreu e abandonou o casco. Você morreu da pior morte, menina, a morte do espírito antes da morte da carne. Serás um eterno peso nesse mundo, e daqui não saíras.
   A menina amaldiçoada não entendeu, porque já não tinha um cérebro e nem imagens em que pensar. Não chorou porque seus sentimentos já haviam secado. Apenas ficou lá parada, no meio de tudo. Uma casca sem nada. Uma casca pesada. Um peso morto no Mundo.