sexta-feira, 24 de abril de 2015

Pés descalços



A mata é barulhenta
É louca, desvairada.
Não para nunca,
um carro atrás do outro
formando um insano hospício.
Trazendo males inigualáveis.
Ninguém sabe mais do ar fresco,
só concreto e caos.
Onde foi parar o rio que tava aqui? (sumiu)
O verde, foi invadido
Os bichos, domados.
Um bando de loucos que se aproximam
E andam sob dois pés cobertos de pano
Usam idiotas e estúpidos aparelhos eletrônicos
Mas não usam mais seus corações. Envelheceram. Desintegraram.
A mata foi enganada, destruída, morta, estuprada,
pra uma paisagem de concreto tomar conta.
Uma paisagem de sofrimento e doenças. Doenças da fadiga.
Só queria poder me pintar e andar com meus pés descalços
sobre meu verde.



segunda-feira, 20 de abril de 2015

Há um lugar no Mundo pra quem não é de fato boa em nada?

Num domingo a tarde vou a mais um evento desses que acontecem em Recife e que os jovens recifenses se reúnem pra admirar algum tipo de arte, conversar, beber, se drogar de alguma forma e principalmente serem vistos. Jovens recifenses aqui nesse contexto especial enquadram-se aqueles cujos interesses são alguma forma de arte, que sejam de uma classe média/rica do Recife e que tenham até mesmo um mesmo tipo de estilo. Acho que posso denominar esse grupo de cults-alternativos-recifenses. E é a esse grupo que eu (quase) me encaixo.
   Como eu ia dizendo, vou num domingo a tarde pra mais um evento desses cults-alternativos-recifenses, onde gente cult-alternativa-recifense se encontra. É como se todo mundo já se conhecesse de uma certa forma, há olhares conhecedores por todos os lados, por mais que as pessoas não se digam um oi, elas se conhecem, talvez até saibam onde você passou as férias passadas, ou a ultima viagem que você fez, as redes sociais te denunciam sempre (ou você se denuncia pelas redes sociais). Não sei, de qualquer forma, estava eu ali fazendo e vestindo a mesma coisa que a maioria, bebendo, conversando, e reconhecendo as pessoas pelo olhar mas sem nunca dizer oi, exatamente como todos fazem.
   Daí, já um pouco tarde da noite, o lugar lota cada vez mais, e eu estou com uma amiga, que tem um talento especial e por esse talento é reconhecida o tempo todo na cena cult-alternativa-recifense, e nós encontramos com um conhecido dela e passamos a ter uma conversa comum sobre arte/cena recifense de arte/conhecidos em comum cults-alternativos-recifenses. Conversa vai, conversa vem e o tal conhecido da minha amiga fala com ela sobre a arte em comum dos dois, que é a fotografia. Ele, tentando me incluir de algum jeito na conversa, pergunta meio que por cima o que eu faço da vida, finjo não escutar de primeira e mudo o rumo do papo. Passa-se um tempo e ele de novo vira pra mim e pergunta "E você é o que? quero dizer, o que faz da vida?", respondo subitamente "Sou formada em publicidade!", me calo, ele olha desinteressado e continua sua conversa com minha amiga.
   Fico pensando depois na minha resposta automática e sem graça, e começo a delirar um diálogo irreal com o cara, que seria mais ou menos assim: "Hum, posso te responder que sou aspirante a diplomata? Que eu nem estudo tanto assim, mas que sinceramente era uma das coisas que eu queria fazer da vida? Hmm, talvez eu possa te dizer que, bem, que eu já fui aspirante a fotógrafa, aspirante a atriz e aspirante a cineasta. Aspirante a publicitária eu nunca fui, mas mesmo assim passei 4 anos da minha vida estudando isso seilápraque. E agora eu nem sei tanto o que quero ser profissionalmente. Há um lugar no Mundo pra quem não é de fato boa em nada?". Bom, sem dúvida eu gostaria que minha resposta pudesse ser "Eu sou escritora.", mas sem dúvida também eu não posso responder isso, já que eu nem ao menos sei escrever de fato. Poderia responder, talvez, que sou uma péssima aspirante a escritora. Quem sabe isso soaria bem e ele pudesse se interessar um pouco mais por mim?.
   Ou quem sabe, eu poderia ter respondido sobre o que eu sou, quem eu sou. Mas acho que dizer sobre meus gostos particulares e estranhos não encheriam tanto os olhos do cara que esperava que eu também fosse alguma coisa artística-cult-alternativa-recifense. Eu acho mesmo que não sou nada cult-alternativa-recifense, mas sei falar igual a eles e me vestir também, acho que consigo dessa forma me infiltrar por entre as cabeças pensantes-artísticas-cheiasde"pessoastemqueseralgumacoisaartisticapraseralguém"- recifense. Ou talvez, eu seja tudo que não me encaixe nesse grupo e esteja ali só por estar. Vai saber!
   Alguns dias depois do ocorrido, estou eu pela cidade com minhas botas pretas de quase salto e debaixo do sol ardente do centro da cidade, admirando a beleza dessa cidade suja e louca e poética, e decido entrar no beco do fotógrafo pra tentar achar algum lugar pra revelar um filme que usei há quase um ano atrás e ainda não tive a coragem de revelar. Entro, meio perdida, procurando por uma loja que fizesse a tal revelação, e um senhor que passa pelo meu lado exclama pra mim "Você é fotógrafa, né?" (penso com meus botões o que responder, rio internamente) "Mais ou menos isso, senhor" "Pelo seu jeito, você é fotografa ou jornalista! Sei pelo estilo de se vestir(Peeeem! soa a buzina na minha cabeça, errou duas vezes senhor, ninguém chuta ~apenas formada em publicidade, sem saber o que fazer da vida~?) "Bom senhor, na verdade, eu tô procurando um lugar pra revelar filmes!", ele me indica o lugar e lá vou eu feliz. Penso novamente com meus botões "Obrigada senhor! Obrigada por perceber que pelo menos eu pareço pertencer ao meu grupo pseudo-cult-artístico-recifence!"
   Rio comigo mesma e volto a ser uma aspirante a ser alguma coisa importante-interessante nessa vida, mesmo só querendo ser eu mesma e conseguir carregar esse fardo de ser alguém que vive.

sábado, 11 de abril de 2015

da dor(ença)

dor de não ser.
sentir por milhões de vezes
cada vez mais pesado
não posso parar pra pensar.
ler, me salva.