sábado, 26 de setembro de 2015

Faz verão no lado de dentro da dúvida


Mil revoluções lunares
me tiram de órbita e me levam prum rumo outro.
No tempo que fazia frio do lado de dentro
e, então, fechei a janela tão apertada que só o que sinto agora é o bafo da vida.
Tô agachada num canto, meio perdida, meio achada
esperando uma carta de tarô que acerte meu destino,
pr'eu poder deixar de me perder
nesses ônibus que não param de fazer voltas pela cidade.
Nesses tempos, pego um sem direção
e deixo pra trás, apagada, a certeza de não poder ter dúvida,
e, na dúvida, vou morar de vez.

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Do que esqueci

Eu tinha uma cômoda no meu antigo apartamento. Ela era pintada de branco e tinha uns puxadores de cerâmica lindos, com detalhes de flores rosas e um círculo dourado rodeando todo o puxador. Um dia, quando mais nova, escrevi uma carta, ou algum tipo de texto, e coloquei por entre duas gavetas dessa cômoda, num lugar escondido, como por um segredo. Não lembro bem o motivo d'eu ter feito isso, mas lembro que comecei a imaginar um conto a partir daquilo para escrever. O conto seria sobre alguém que amava muito alguém, e escrevia uma carta para a outra se declarando e escondia essa carta numa cômoda, mas a outra pessoa, a que era amada, só encontrava essa carta no final de sua vida, por sorte, naquela cômoda, que esteve a sua frente todos os anos anteriormente vividos.
Eu não escrevi esse conto. Assim como milhões de outros que criei na minha cabeça mas não passei para o papel. E não lembro também onde foi parar minha cômoda branca de puxadores de cerâmica. E nem se o texto secreto que escrevi continuou dentro dela.