sábado, 13 de agosto de 2016

Despertarse y despedirse



Depois de ter passado dois dias conhecendo um pedaço de Montevideo e de ter andado muito no dia anterior, caminhando a todos os cantos da capital uruguaia para ver o que aquela cidade deixaria no meu coração, me pego sentada em um ônibus cruzando o litoral uruguaio até a Colonia del Sacramiento, onde lá, eu e Raul, pegaríamos um barco para atravessar o Rio de La Plata e enfim chegarmos em nosso destino final – Buenos Aires – onde decidimos arriscar e começar uma vida totalmente do zero.

Enquanto cruzo as estradas uruguaias de ônibus, sentada na cadeira do corredor, podendo ver Raul dormir na cadeira do outro lado do mesmo corredor, coloco para tocar no celular a trilha sonora de Elizabethtown. Escutei essa mesma trilha repetidas vezes durante a vida, mas pela primeira vez me sentia em sintonia com a história a qual a trilha sonora pertence. No filme, Drew recebe um conjunto de mapas e CD’s de Claire, especialmente planejado por ela para que Drew pudesse cruzar as estradas dos Estados Unidos se despedindo de seu pai que morrera há pouco e abrindo seu coração para uma nova visão de mundo ao qual Drew foi arremessado, depois de quase se suicidar por causa de um trabalho mal reconhecido. Elizabethtown é sobre vida e morte. A sua trilha sonora demonstra isso claramente nas músicas escolhidas. Escolhi essa playlist para aquela minha viagem porque sentia como se uma antiga eu estivesse morrendo, ficando pra trás. Era a eu, menina e de madrats nos pés que ficava para trás, que ficava em Olinda, nas ladeiras daquela cidade boêmia, louca e aconchegante. A menina do quarto nem sempre muito arrumado, de poucas preocupações e casa de papai, que não precisava pagar as contas no final do mês, e podia apenas abrir a porta e encontrar o irmão querido pra ajudar em mais algum problema no computador ou no coração.

Eu via todas aquelas paisagens passando com rapidez pela janela do ônibus, as placas em espanhol, o verde ouriçado dos campos uruguaios, algumas pontes que protegiam seus rios de direito com esmero, enquanto todas aquelas canções folks e românticas bombardeavam minha cabeça com lembranças, sonhos e saudades – não as que já possuía, mas as que com certeza viria a sentir com o passar do tempo e da distância que as coisas iriam tomando, a distância dos amigos, do cotidiano recifense, do cotidiano em família -. “É, agora é pra valer. Sou eu por mim mesma. Sem mais o calor da casa que se nasce. Vou fazer o máximo possível para ser feliz”, eu pensava.

Pela primeira vez na vida, eu estava saindo de casa. De casa, família. De casa, amigos. De casa, Nordeste. De casa, Brasil. De casa, língua portuguesa. É bem verdade que eu estava indo de mãos dadas com um companheiro de amor intenso e verdadeiro, mas eu não conseguia parar de pensar: “Pai, Vini, me perdoem por não conseguir ficar. Encontrei meu amor, e desejei seguir minha vida para novas jornadas. Preciso encontrar meu lugar no Mundo. Preciso engrandecer as janelas da minha alma”.

Eu fui, mas levei a chave de casa na bolsa. Coloquei ela no bolsinho da minha mochila de costas, depois de ter trancado pela última vez a casa em que nasci e vivi até meus 26 anos. Não a casa: lugar de cimento e tijolo, mas a casa: lugar habitado por quem é família, por quem conviveu diariamente com você, te vendo passar por todas as fases clichês de infância e juventude. Levei a chave de casa, pra sempre saber pra onde voltar.


Me despedi com rapidez e saí, pronta para saber o que a vida esperava de mim. O que eu esperava da vida ainda era uma incógnita. Mas levava comigo minha consciência, em estado de desperto, e minha vontade imensa de desbravar o Mundo.